Tradutor

sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

Doutores: "Vaidade das vaidades"...

No início da década de 90, recém-saída do mestrado em Comunicação na USP, e querendo viver numa cidade menor, de vida mais tranquila, mais saudável, mais simples, se possível onde pudesse andar mais a pé, perder menos tempo em trânsito, contemplar o mar muitas vezes por semana, aceitei a proposta de uma faculdade particular nordestina, que precisava de professores titulados, pois pretendia se transformar em universidade.

Meses depois, já atuando numa universidade federal, precisei de um advogado para cuidar de uma pendência, e numa de nossas primeiras conversas ele me tratou de "Doutora Sonia"... Aquilo me soou mal, estranhei, achei que ele troçava... mas não. Ele usara a expressão naturalmente. Indaguei então por qual motivo ele se dirigira a mim daquela forma, já que eu era apenas professora da universidade. Ele me explicou que "no Nordeste" era costume se dirigir a todas as pessoas com "nível superior", a todas as pessoas que têm formação universitária, empregando as expressões "doutor" ou "doutora". "Aqui, todo mundo que fez faculdade é doutor, doutora!", afirmou ele.

Surpresa e constrangida, declinei da deferência, e o "autorizei" a quebrar a "norma nordestina", o costume local, e me tratar por "Professora Sonia", "Senhora Sonia" ou apenas pelo meu nome.

A escravidão, os séculos de dominação, de subjugação das elites sobre as camadas mais pobres da população justificam tais costumes, absolutamente descabidos hoje em dia, quando qualquer um consegue um diploma universitário, com a proliferação vertiginosa de faculdades nas últimas décadas. E não vai aqui nenhuma crítica à democratização do ensino. Desde que seja ensino de qualidade, o que nem sempre ocorre.

Teria sentido continuar usando hoje tal tratamento para um reles recém-formado em Direito, saído destas verdadeiras espeluncas que pululam em cada quarteirão, cujo ensino é em geral sofrível, o que explica a reprovação em massa de milhares de bachareis no Exame da OAB?

Vivemos numa democracia imperfeita, num Estado de Direito em construção. Bolsões oligárquicos, aristocráticos, movidos a vantagens e privilégios, verdadeiras castas, ainda existem em vários recantos do País, de norte a sul, inclusive em grandes cidades. Não ignoramos isso.

Mas cidadania pressupõe direitos e deveres iguais. E ela deve permear todas as esferas da sociedade. Assim como rejeitamos aqui, várias vezes, a classificação de "blogueiros de segunda classe", tentada por supostos "blogueiros pioneiros", "blogueiros vip" ou "blogueiros de primeira classe", repelimos também, veementemente, a existência de cidadãos de segunda categoria.

Abaixo, mais um texto interessante para ampliar as reflexões a respeito de relações de subalternidade e dominação e sua manifestação em vários setores da sociedade.


Num país de analfabetos, quem sabe ler é chamado de doutor

Victor André Liuzzi Gomes

Recentemente, chamou-me a atenção à solução de determinada demanda judicial que tramitou na Corte fluminense envolvendo magistrado que pleiteava tratamento formal de doutor por parte dos funcionários do condomínio onde residia. O colega que julgou o caso negou-lhe a tutela jurídica solicitada, alegando que, embora se tratasse de um juiz digno, merecedor de todo o respeito, não poderia ostentar tal faculdade, pois doutor não é forma de tratamento, e sim título acadêmico utilizado apenas quando se apresenta tese a uma banca e esta a julga merecedora de um doutoramento. Emprega-se apenas às pessoas que tenham tal grau.

Agiu corretamente o juiz sentenciante. O mestre Houaiss, em seu dicionário, ensina que doutor é “aquele que, numa universidade, foi promovido ao mais alto grau depois de haver defendido tese em alguma disciplina literária, artística ou científica”.

Na prática, entretanto, chamamos o juiz, o deputado, o delegado, o promotor, etc., mesmo sem aquela mais alta graduação universitária, de doutor. Por quê?

A lei não confere aos detentores desses cargos públicos a denominação de doutor. A linguagem técnica, recomendável até por uma questão de etiqueta, indicaria chamá-los apenas por senhor seguido da indicação do cargo, ou seja, senhor juiz, senhor deputado e assim por diante.

Semelhante costume atinge aos profissionais da saúde. Chama-se o médico de doutor, mesmo aqueles que não possuem doutorado.

A explicação para a prática em análise é facilmente encontrada. Em um país em que o analfabetismo e a pobreza atingem níveis escandalosos, criou-se o entendimento comum de que, quem consegue concluir um curso superior, qualquer que seja, torna-se doutor.

Com isso, o surgimento desordenado de faculdades privadas — as faculdades de Direito, por exemplo, são quase incontáveis —, às vezes sem o mínimo critério quanto à qualidade do ensino, nos transformará no país dos doutores. Quero deixar claro que não sou contra a democratização do ensino superior, muito pelo contrário, apenas acho que essa democratização deve ter como corolário a produção científica e não a produção de bacharéis e diplomas, com a única finalidade de alimentar a vaidade inerente a natureza humana.

Pior ainda são os doutores do capital, aqueles que ostentam o título pela força da riqueza, mesmo sem nunca terem freqüentado uma faculdade, demonstrando a arrogante supremacia do dinheiro sobre a produção do gênio humano.

Conheci grandes doutores que nunca exigiram tal titulação, se vestiam com roupas simples, seguiam rotina espartana e nunca compraram na Daslu, mas que contribuíram sobremaneira para a melhoria da sociedade.

O certo é que nós valorizamos mais a forma do que o conteúdo. Odiosa praxe inerente a um país provinciano que incorpora em um mesmo território extremos inexplicáveis. Trafegamos pela Bélgica, quando nos referimos à futilidade e bens de consumo e por Serra Leoa, país africano dos mais miseráveis, quando queremos identificar a pobreza.

Temos que ter consciência que independente do título que se pavoneia, somente o produto do gênio humano é eterno. As bolsas da Daslu não resistirão à primeira festa de emergentes enquanto as sinfonias de Mozart e Beethoven ecoarão pela eternidade.

http://www.conjur.com.br/